domingo, 22 de setembro de 2013

A arma de Bruna

Barulho. Ruídos sobre ruídos, pedinchões, vozes fortes de baixo travestis, lixo, poeira voadora e provocadora de espirros, crianças a ser amamentadas pelas suas mães, ciganas, com saia largas, algumas azuis, outras com flores rosa em fundo branco, camisolas curtas largas azuis, quase todas azuis, cabelos pretos oleosos com ganchos grandes a prender o cabelo, chinelos de plástico transparentes, com os pais ao lado, todos vestidos de negro, sapatos pretos, chapéu da mesma cor, a meia branca nos mais velhos despreocupados, preta nos mais novos, com os avós ao lado, mais gordos, com a mesma roupa dos seus descendentes. Caras conhecidas que se embebedaram na noite anterior à grande e acabaram por correr nus pela avenida com uma garrafa de champagne e, muitos deles, apanhados a urinar para os carros da polícia. Este era o ambiente da esquadra, no Porto, onde Bruna trabalhava. 
                A vida de Bruna nem sempre era rodeada da agitação constante normalmente rotulada na vida da luta contra o crime. Chegou a casa, foi buscar umas snack’s, tratou de ir buscar duas pedras ao congelador para juntar ao uísque – noutro dia, o barman aconselhou a não beber nunca com mais de duas pedras, caso contrário estragaria, por completo, sabor caraterístico do uísque -, fritou umas batatas fritas com óleo, juntou no outro disco uns bifes, temperou com limão, com salsa e sal, e depois usou azeite para o fritar. Petiscou os snack’s enquanto tratava de cozinhar. De repente apercebeu-se que tinha a televisão ligada e lançou uma fisgada à notícia. Mais uma vez era a notícia de uma criança violada e assassinada deixada ao pé da autoestrada. O nome da criança era David. Lembrou-se de ligar à mãe.
                - Estou, mãe, é a Bruna – apresentava-se Bruna.
                - Então, filhota, como estás? Quando deixas isso da polícia? Já tens cinquenta e sete anos, filha. Ainda por cima estás divorciada, precisas de um homem, filha.
                - Não preciso nada. Como está o pai? – perguntou Bruna.
- Está bem. Está a falar com o teu tio Manuel. Eu estou aqui na cozinha com a tua tia Catarina – retorquiu a mãe de Bruna.
- Deve andar bem entretido, ontem liguei para o telemóvel dele, mas nada, também liguei para ti, e tu também nada.
- Ó Filha, estava aqui na conversa, nem reparei. Quando vens até cá? – questionou a mãe de Bruna.
-Talvez para a semana apareça aí por Lavra, também não é muito longe daqui e assim aproveito para estar com vocês. Bem, vou desligar, amanhã ligo. Adeus – despediu-se friamente.

David, uma criança de oito anos, era uma criança muito reservada, não dava confiança a qualquer outra das crianças nos recreios. Por vezes, aparecia para jogar à bola, porém, como não tinha muito jeito, punha-se na “mama”, como diziam os seus colegas. Havia dias que marcava uma série de golos e saía do recreio feliz, sim, não jogava muito bem, mas marcar golos dava-lhe autoestima e tema de conversa com os outros colegas. Os pais eram divorciados, esta nova sina que apareceu em avalanche na década de oitenta, e David vivia num constante jogo de interesses dos seus pais na luta pelo seu coração. De forma que era um miúdo excessivamente  mimado. Tal educação mostrava-se prejudicial na sua interação social. Senhora Professora, o David fez xixi nas calças, dizia um dos colegas de David, e este, ouvindo o queixume, entornou meia coca-cola nas calças, Não foi nada, senhora professora, deixei cair a cola nas calças. Naquele dia, as outras crianças gozaram todas com ele e acabou mesmo por chorar, o que foi pior, pois passaram a apelidar-lhe de “choramingas mijão”. Choramingas mijão fazes xixi nas calças ou no chão? Os pais, por sua vez, pouco se importavam com os comportamentos depressivos do filho, ou seja, a resolução dos problemas era conseguida com um novo brinquedo ou um novo gelado. Um certo dia, pelo que dizem os colegas, um Porsche amarelo passou pela escola e David entrou. Não se sabe para onde foi, somente o seu destino, sendo encontrado numa mata em Lamego só com a camisola colocada e o resto do corpo nu. Tinha o pescoço partido, foi encontrado sémen somente na boca da criança. Após uma avaliação mais cuidada da situação, verificou-se que o rapaz foi violado e, possivelmente, morreu no ato por asfixia e estrangulamento pelas duas mãos do agressor e violador. Depois de outra análise, e isto foi contado por um inspetor amigo de Bruna presente na investigação, que o pedófilo ainda voltou uma semana depois para se satisfazer sexualmente com o cadáver da criança.

Mais um dia para Bruna. Levantou-se, fez umas torras e bebeu um café. Aproveitou ainda para ligar para um amigo com o qual se encontrava para encontros ocasionais. Chamava-se Cândido e era um intelectual cheio de aspirações a escrever livros e discutir literatura a toda hora. Era casado, porém, a mulher não o satisfazia e ele procurava aconchego em Bruna. Tocaram a campainha. Foi abrir e era Cândido.
- Então, porque não tens atendido as minhas chamadas? – atacou logo Cândido.
-Entra. Não tenho tido muito tempo – ripostou. Não era bem verdade, aliás, ela sentia, ultimamente, alguns remorsos pelo simples razão de estar envolvido com um homem de família.
Cândido sentou-se no sofá. O fedor era intenso, mas Bruna nem se dera ao trabalho de explicar que dormira no sofá por causa da quantidade de mosquitos emparelhada de noite no seu quarto.
- Estou a fazer umas omeletes com queijo, molho de soja e bocadinhos de fiambre e bacon, queres? – ofereceu ela a Cândido.
- Não, não, tenho andado um pouco indisposto.
Cândido parecia nervoso. A sua postura mostrava algo nos seus tiques nervosos. Ela pensou logo que ele ou tinha problemas em casa com a mulher, ou, simplesmente, andava a exagerar nas leituras pesadas e na escrita. Naquele dia, ele trazia um casaco de bombazine, com folhos castanhos nas ombreiras, característico de um intelectual, com o cachimbo guardo no bolso esquerdo do casaco a fazer chumaço, trazia dois livros, um exemplar de Nikolai Gogol, “Almas Mortas”, pouco lido ou mesmo nada conhecido em Portugal, dado que os portugueses, aqueles que ainda liam, eram restritos às vontades comerciais das editoras, e outro de José Saramago.
- Esse Saramago é o comuna, não é? – perguntou Bruna.
- Sim, é esse mesmo. É muito bom. O Lobo Antunes também – acrescentou Cândido.
- Esse Gogol é algum dissidente comunista, como aquele Andrei Amalrik?
- Não, não, Gogol já vem do século XIX, é o bastião do realismo e o mestre do romance russo, apesar de alguns escritores com Dostoiévksi o ridicularizarem, será nele que a literatura russa buscará as bases.

Nesse dia, não tiveram relações, pois ela, como não lhe apetecia, talvez devido àqueles ataques de consciência, ou então porque começava a querer um homem para se comprometer, inventou que estava naquela altura do mês. Cândido, no início, amuou e ficou sem falar durante uma hora, porém, vendo que a sua birra em nada a incomodava, lá acabou por falar de literatura, ou melhor, de fazer análise literárias aos escritores contemporâneos, com ela, naquilo que era, evidentemente, mais um monólogo do que propriamente um diálogo. 

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