Barulho. Ruídos sobre ruídos, pedinchões, vozes fortes de
baixo travestis, lixo, poeira voadora e provocadora de espirros, crianças a ser
amamentadas pelas suas mães, ciganas, com saia largas, algumas azuis, outras
com flores rosa em fundo branco, camisolas curtas largas azuis, quase todas
azuis, cabelos pretos oleosos com ganchos grandes a prender o cabelo, chinelos
de plástico transparentes, com os pais ao lado, todos vestidos de negro,
sapatos pretos, chapéu da mesma cor, a meia branca nos mais velhos
despreocupados, preta nos mais novos, com os avós ao lado, mais gordos, com a
mesma roupa dos seus descendentes. Caras conhecidas que se embebedaram na noite
anterior à grande e acabaram por correr nus pela avenida com uma garrafa de champagne
e, muitos deles, apanhados a urinar para os carros da polícia. Este era o
ambiente da esquadra, no Porto, onde Bruna trabalhava.
A vida
de Bruna nem sempre era rodeada da agitação constante normalmente rotulada na
vida da luta contra o crime. Chegou a casa, foi buscar umas snack’s, tratou de ir buscar duas pedras
ao congelador para juntar ao uísque – noutro dia, o barman aconselhou a não
beber nunca com mais de duas pedras, caso contrário estragaria, por completo,
sabor caraterístico do uísque -, fritou umas batatas fritas com óleo, juntou no
outro disco uns bifes, temperou com limão, com salsa e sal, e depois usou
azeite para o fritar. Petiscou os snack’s
enquanto tratava de cozinhar. De repente apercebeu-se que tinha a televisão
ligada e lançou uma fisgada à notícia. Mais uma vez era a notícia de uma
criança violada e assassinada deixada ao pé da autoestrada. O nome da criança
era David. Lembrou-se de ligar à mãe.
-
Estou, mãe, é a Bruna – apresentava-se Bruna.
-
Então, filhota, como estás? Quando deixas isso da polícia? Já tens cinquenta e
sete anos, filha. Ainda por cima estás divorciada, precisas de um homem, filha.
- Não
preciso nada. Como está o pai? – perguntou Bruna.
- Está bem. Está a falar com o
teu tio Manuel. Eu estou aqui na cozinha com a tua tia Catarina – retorquiu a
mãe de Bruna.
- Deve andar bem entretido, ontem
liguei para o telemóvel dele, mas nada, também liguei para ti, e tu também
nada.
- Ó Filha, estava aqui na
conversa, nem reparei. Quando vens até cá? – questionou a mãe de Bruna.
-Talvez para a semana apareça aí
por Lavra, também não é muito longe daqui e assim aproveito para estar com
vocês. Bem, vou desligar, amanhã ligo. Adeus – despediu-se friamente.
David, uma criança de oito anos,
era uma criança muito reservada, não dava confiança a qualquer outra das
crianças nos recreios. Por vezes, aparecia para jogar à bola, porém, como não
tinha muito jeito, punha-se na “mama”, como diziam os seus colegas. Havia dias
que marcava uma série de golos e saía do recreio feliz, sim, não jogava muito
bem, mas marcar golos dava-lhe autoestima e tema de conversa com os outros
colegas. Os pais eram divorciados, esta nova sina que apareceu em avalanche na
década de oitenta, e David vivia num constante jogo de interesses dos seus pais
na luta pelo seu coração. De forma que era um miúdo excessivamente mimado. Tal educação mostrava-se prejudicial
na sua interação social. Senhora Professora, o David fez xixi nas calças, dizia
um dos colegas de David, e este, ouvindo o queixume, entornou meia coca-cola
nas calças, Não foi nada, senhora professora, deixei cair a cola nas calças. Naquele
dia, as outras crianças gozaram todas com ele e acabou mesmo por chorar, o que
foi pior, pois passaram a apelidar-lhe de “choramingas mijão”. Choramingas
mijão fazes xixi nas calças ou no chão? Os pais, por sua vez, pouco se
importavam com os comportamentos depressivos do filho, ou seja, a resolução dos
problemas era conseguida com um novo brinquedo ou um novo gelado. Um certo dia,
pelo que dizem os colegas, um Porsche amarelo passou pela escola e David
entrou. Não se sabe para onde foi, somente o seu destino, sendo encontrado numa
mata em Lamego só com a camisola colocada e o resto do corpo nu. Tinha o
pescoço partido, foi encontrado sémen somente na boca da criança. Após uma
avaliação mais cuidada da situação, verificou-se que o rapaz foi violado e,
possivelmente, morreu no ato por asfixia e estrangulamento pelas duas mãos do
agressor e violador. Depois de outra análise, e isto foi contado por um
inspetor amigo de Bruna presente na investigação, que o pedófilo ainda voltou
uma semana depois para se satisfazer sexualmente com o cadáver da criança.
Mais um dia para Bruna.
Levantou-se, fez umas torras e bebeu um café. Aproveitou ainda para ligar para
um amigo com o qual se encontrava para encontros ocasionais. Chamava-se Cândido
e era um intelectual cheio de aspirações a escrever livros e discutir
literatura a toda hora. Era casado, porém, a mulher não o satisfazia e ele
procurava aconchego em Bruna. Tocaram a campainha. Foi abrir e era Cândido.
- Então, porque não tens atendido
as minhas chamadas? – atacou logo Cândido.
-Entra. Não tenho tido muito
tempo – ripostou. Não era bem verdade, aliás, ela sentia, ultimamente, alguns
remorsos pelo simples razão de estar envolvido com um homem de família.
Cândido sentou-se no sofá. O
fedor era intenso, mas Bruna nem se dera ao trabalho de explicar que dormira no
sofá por causa da quantidade de mosquitos emparelhada de noite no seu quarto.
- Estou a fazer umas omeletes com
queijo, molho de soja e bocadinhos de fiambre e bacon, queres? – ofereceu ela a
Cândido.
- Não, não, tenho andado um pouco
indisposto.
Cândido parecia nervoso. A sua
postura mostrava algo nos seus tiques nervosos. Ela pensou logo que ele ou
tinha problemas em casa com a mulher, ou, simplesmente, andava a exagerar nas
leituras pesadas e na escrita. Naquele dia, ele trazia um casaco de bombazine,
com folhos castanhos nas ombreiras, característico de um intelectual, com o
cachimbo guardo no bolso esquerdo do casaco a fazer chumaço, trazia dois
livros, um exemplar de Nikolai Gogol, “Almas Mortas”, pouco lido ou mesmo nada
conhecido em Portugal, dado que os portugueses, aqueles que ainda liam, eram
restritos às vontades comerciais das editoras, e outro de José Saramago.
- Esse Saramago é o comuna, não
é? – perguntou Bruna.
- Sim, é esse mesmo. É muito bom.
O Lobo Antunes também – acrescentou Cândido.
- Esse Gogol é algum dissidente
comunista, como aquele Andrei Amalrik?
- Não, não, Gogol já vem do
século XIX, é o bastião do realismo e o mestre do romance russo, apesar de
alguns escritores com Dostoiévksi o ridicularizarem, será nele que a literatura
russa buscará as bases.
Nesse dia, não tiveram relações,
pois ela, como não lhe apetecia, talvez devido àqueles ataques de consciência,
ou então porque começava a querer um homem para se comprometer, inventou que
estava naquela altura do mês. Cândido, no início, amuou e ficou sem falar
durante uma hora, porém, vendo que a sua birra em nada a incomodava, lá acabou
por falar de literatura, ou melhor, de fazer análise literárias aos escritores
contemporâneos, com ela, naquilo que era, evidentemente, mais um monólogo do
que propriamente um diálogo.
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