O cheiro das pitas, não demasiado forte, entranha-se a gosto
nas gentes dos campos, pouco lhes importa o que as outras pessoas dizem, sim, a
estes é verdade, nos snobes da cidade levam até a exaustão esta máxima, no
entanto, ou porque os cheiros importam, ou as vontades, acabam sempre por se
importar, seja de forma mais direta e visível com os mais sensíveis a chorar em
público ou a barafustar com os amigos, seja de maneira mais discreta em casa,
também a chorar, mas sem ninguém saber, pois homem não chora, mulher também
não, isso é coisa de fracos, mas de fracos também fica a sua atitude com os
outros, eu, chorar? Isso é coisa de estúpidos, não sabe ele que a namorada já
contou ao amigo e este a outro amigo e este aos colegas e estes aos seus amigos
que chorou quando deitou sangue do cu das hemorroidas e quando a tia-avó ficou
acamada. Devaneios, nada mais.
Maria
Joana, sempre muito trabalhadora, foi aos correios levantar o subsídio a que
tinha direito, não que vivesse mal, mas arranjou uma cunha lá na junta e
conseguiu um dinheirito extra, ao menos dá para os cigarros, dizia ela, e, já
cansadita daquele trajeto e da espera prolongada em filas da segurança social,
foi tratar da horta, cheirou-lhe a esturro, ou outro cheiro mais forte, não,
merda é das pitas, mas é parecido. Um carrito, com um megafone colado ao teto,
um carrito foleiro, nada de mais, lembrou-se que era altura de eleições,
lembrou-se também que fora das últimas a nascer de António e Helena, a sexta,
numa gravidez de altíssimo risco, no tempo dos seus pais é que não havia
barulho com isto, era tudo silencioso, às escuras se fazia tudo, mas era tudo
claro, agora, paradoxalmente, às claras se fazia tudo, mas era tudo muito
escuro, porco até, como o cheiro. Então, enquanto trocava mensagens com uma
amiga, pois já tinha tratado da horta, o marido que fosse tratar dos animais,
parasita dum raio, não faz nada, fez uma comparação analógica entre política e
opções sexuais, sim, ora veja-se, pensava ela, há os da esquerda moderada,
chamada esquerda de centro, e os da
direita moderada, chamada mais direita de centro, estes são como os
heterossexuais, fazem a sua vidinha, ficam pelo sexo vaginal, às vezes mais
ousados vão ao sexo oral, mudando, assim da extrema esquerda para uma esquerda
mais moderada ou inverso, por vezes, mais ousados, acabam por enrabar toda a
gente, mas isto é outra história e só em crise, por sua vez, os bissexuais,
estes eram os da extrema esquerda, pois não sabiam se eram leninistas ou
estalinistas, ah Lenine é que implementou o comunismo na Rússia, pouco tempo
esteve lá, mas foi bom, Estaline é que foi o grande salvador, se não fosse ele
Hitler ainda nos estava a queimar, e os planos quinquenais, boa pomada, mas
também matou tanta gente, mais que o Hitler, pois é o que te ia dizer que é por
isso que sou leninista, mas olha que foi graças a ele que se fala de comunismo,
pois, não deixas acabar, também sou estalinista, mas fique-se aqui pela
bissexualidade, depois há os homossexuais, esses, no fundo, são os que saem do
partido da extrema esquerda por “diversidade de ideias”, que treta, no fundo,
fodem-se todos uns aos outros, aos do seu género, como tal, são homossexuais, mas
não se fique por aqui, também há aquele que não sabem se são heterossexuais ou
se são homossexuais, ou seja, não têm partido, pois também não ligam muito a
ideologias, o que interessa é o poder, recorde-se ainda outro tipo, os
travestis, estes são muito frequentes, são da direita, por exemplo, ou da
esquerda, e, curiosamente, mudam para o outro lado, para a direita no caso de
serem da esquerda, para a esquerda no caso de serem da direita. Então aquilo já
lhe cheirava a outra coisa, era a líquidos e coisas do sexo.
- Bolaño,
traz salsa para se pôr tempero – gritava Maria Joana.
- Levo
tomates também?
- Estão maduros?
- Sim, alguns.
- Traz esses. E o cheiro?
- É daquele que tu gostas. Bem lavadinhos fica um mimo.
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