Estrume. Tudo começa com esse
cheiro, com um princípio nauseabundo que se entranha e cresce e faz crescer
outras maravilhas e outros cheiros que nos arrastam desde a natureza aos
esgotos. A boa coube verde que é neutral ao primeiro inspirar e, após uma
segunda aproximação, trás outro gosto, outro resguardo ao nariz. E não se
esqueça a laranja presa à laranjeira que dá-nos cor e depois dá-nos cheiro e
depois dá-nos sabor. E os morangos que, logo associados à sua cor vermelha quando
bem maduros, nos transmitem, antes do sabor, aquele cheiro tão apaixonado que
não é cheiro e parece outra coisa, mas que, ao mesmo tempo, não é só cor e é
somente cheiro que vicia o nosso nariz, seja ele pontiagudo ou curto, e uma
dentada, envergonhada, sedenta, calorosa, invejosa, surge como se fosse aquele
o último bip da máquina do hospital ao pé da cama em que nos encontramos para
seguir outro rumo que não a padaria do pão quente ou outra mais acima que agora
não me lembra do raio do nome, e, sem mais nem menos, acordamos e continuamos a
viver. Foi isso que Maria Joana fez.
Pegou
no cigarro, fumou-o até a última. E, como o cigarro era daqueles de enrolar,
com uma mortalha bem grande que, exageradamente, alavancou em Maria Joana a
recordação em que o seu padrinho, velho de 89, daqueles que já urinava de cinco em cinco minutos porque a
bexiga estava já cheia de viver, com uma bengala com a ponta preta e um leão de
prata no cimo, fora embrulhado numa bela mortalha branca, mas a madrinha mandou
logo à cara da afilhada que não era branca mas sim bege e que nem na hora da
morte teve a decência de gastar uns troquinhos com o padrinho que fizera tanto
por ela – bom, faça-se aqui justiça a Maria Joana, a mortalha era branca,
contudo a madrinha, além de daltónica de quinto grau, já só via com um
telescópio à frente – e não tinha sentido tal comportamento tão egoísta e
histérico da sua parte. E como o cigarro era de enrolar, a vizinha, que usava
um vestido com rosas azuis que era tão apertado que as tetas saiam para fora,
lá disse que ah meu deus que isto é coisa de drogado e a rapariga que era tão
boa moça foi-se meter em coisa desta, gosto tanto dela ai cruzes que vou contar
à sua mãe, pois a rapariga é tão bonita e tão bem arranjadinha. Era boa para o
meu João, mas, assim, drogada não, não, não, o meu João não quer nada disto.
Fumou
outro cigarro. Este mais lentamente, puxou uma e puxou duas, e o cheiro que se
revelava incomodativo de princípio, passados dois segundos, tornou-se um
queimado saboroso, reconfortante e, de uma certa forma, era o seu fumo, o fumo
da solidão que afasta todos os não-fumadores que mandam sempre o comentário do
“isso faz-te mal” e, até, os próprios fumadores que só gostam de inalar o seu
próprio fumo pois o fumo dos outros faz mal à sua saúde; resumindo o fumo dos
outros é como os peidos dos outros e o nosso fumo é como os nossos peidos, ou
seja, o nosso toleramos, mas o dos outros é nojento e rude e mal educado e
exalta toda a carna podre e decadente do ser humano no seu momento de rejeição
de algo que é o seu lixo. Puxou a terceira e a quarta e, irónico ou não, deu
mesmo um peidinho,tímido é preciso dizer, não fosse a vizinha coscuvilheira espalhar
que era moça de má educação e que não tinha maneiras.
-
Maria Joana, cheira aqui mal – disse o marido que estava a dar de comer às
pitas.
-
Deve ser das couves, meti-lhes água agora – respondeu Maria Joana.
Maria
Joana estava a cozinhar um frango com batatas assadas no forno, com ervinhas
aromática que mencionava no pacote que era salsa da Colômbia, no entanto eram
ervas arrancadas de uma plantação qualquer de ervas mais verdes e pontiagudas e
isso era de desconfiar. Todavia, salsa verdadeira ou salsa falsa, as ervas
possuíam o nariz da Maria Joana a tal
ponto misericordioso de uma entrega rápida à casa de banho. Que vais fazer tu
para a casa de banho agora que o frango está quase assado? Ó querido, mete aí
um olho que já vou, é rápido, respondia Maria Joana. Está bem, está bem. O
marido que nem ligava a essas ervas era louco por batatas e cheirou aquele
bufada quente que transpirava das batas, bem amarelinhas e cobertas de ervas
que para ele era só enfeite, e logo ali ficava meio perdido e também com
vontade de ir à casinha de banho. Mulher, despacha-te, também quero ir aí. Ai,
caramba, também? Que queres mulheres, deve ter sido do jantar de ontem que
fizeste. O peixe devia estar mais cozido que o diabo.
Maria
Joana lá foi para a cozinha novamente. O marido enfiou-se na casa de banho em
dois tempos. Do corpo de Maria Joana emanava um cheiro de uma mistura de tabaco
com couve, com ervas, com efeitos de flatulência, com batatas assadas, com
frango bem assadinho e uma pitada de prazer no fim. Que bom perfume, acabou por
constatar Maria Joana.
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