sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O perfume de Maria Joana

Estrume. Tudo começa com esse cheiro, com um princípio nauseabundo que se entranha e cresce e faz crescer outras maravilhas e outros cheiros que nos arrastam desde a natureza aos esgotos. A boa coube verde que é neutral ao primeiro inspirar e, após uma segunda aproximação, trás outro gosto, outro resguardo ao nariz. E não se esqueça a laranja presa à laranjeira que dá-nos cor e depois dá-nos cheiro e depois dá-nos sabor. E os morangos que, logo associados à sua cor vermelha quando bem maduros, nos transmitem, antes do sabor, aquele cheiro tão apaixonado que não é cheiro e parece outra coisa, mas que, ao mesmo tempo, não é só cor e é somente cheiro que vicia o nosso nariz, seja ele pontiagudo ou curto, e uma dentada, envergonhada, sedenta, calorosa, invejosa, surge como se fosse aquele o último bip da máquina do hospital ao pé da cama em que nos encontramos para seguir outro rumo que não a padaria do pão quente ou outra mais acima que agora não me lembra do raio do nome, e, sem mais nem menos, acordamos e continuamos a viver. Foi isso que Maria Joana fez.
                Pegou no cigarro, fumou-o até a última. E, como o cigarro era daqueles de enrolar, com uma mortalha bem grande que, exageradamente, alavancou em Maria Joana a recordação em que o seu padrinho, velho de 89, daqueles que  já urinava de cinco em cinco minutos porque a bexiga estava já cheia de viver, com uma bengala com a ponta preta e um leão de prata no cimo, fora embrulhado numa bela mortalha branca, mas a madrinha mandou logo à cara da afilhada que não era branca mas sim bege e que nem na hora da morte teve a decência de gastar uns troquinhos com o padrinho que fizera tanto por ela – bom, faça-se aqui justiça a Maria Joana, a mortalha era branca, contudo a madrinha, além de daltónica de quinto grau, já só via com um telescópio à frente – e não tinha sentido tal comportamento tão egoísta e histérico da sua parte. E como o cigarro era de enrolar, a vizinha, que usava um vestido com rosas azuis que era tão apertado que as tetas saiam para fora, lá disse que ah meu deus que isto é coisa de drogado e a rapariga que era tão boa moça foi-se meter em coisa desta, gosto tanto dela ai cruzes que vou contar à sua mãe, pois a rapariga é tão bonita e tão bem arranjadinha. Era boa para o meu João, mas, assim, drogada não, não, não, o meu João não quer nada disto.
                Fumou outro cigarro. Este mais lentamente, puxou uma e puxou duas, e o cheiro que se revelava incomodativo de princípio, passados dois segundos, tornou-se um queimado saboroso, reconfortante e, de uma certa forma, era o seu fumo, o fumo da solidão que afasta todos os não-fumadores que mandam sempre o comentário do “isso faz-te mal” e, até, os próprios fumadores que só gostam de inalar o seu próprio fumo pois o fumo dos outros faz mal à sua saúde; resumindo o fumo dos outros é como os peidos dos outros e o nosso fumo é como os nossos peidos, ou seja, o nosso toleramos, mas o dos outros é nojento e rude e mal educado e exalta toda a carna podre e decadente do ser humano no seu momento de rejeição de algo que é o seu lixo. Puxou a terceira e a quarta e, irónico ou não, deu mesmo um peidinho,tímido é preciso dizer, não fosse a vizinha coscuvilheira espalhar que era moça de má educação e que não tinha maneiras.
                - Maria Joana, cheira aqui mal – disse o marido que estava a dar de comer às pitas.
                - Deve ser das couves, meti-lhes água agora – respondeu Maria Joana.
                Maria Joana estava a cozinhar um frango com batatas assadas no forno, com ervinhas aromática que mencionava no pacote que era salsa da Colômbia, no entanto eram ervas arrancadas de uma plantação qualquer de ervas mais verdes e pontiagudas e isso era de desconfiar. Todavia, salsa verdadeira ou salsa falsa, as ervas possuíam o nariz da Maria Joana  a tal ponto misericordioso de uma entrega rápida à casa de banho. Que vais fazer tu para a casa de banho agora que o frango está quase assado? Ó querido, mete aí um olho que já vou, é rápido, respondia Maria Joana. Está bem, está bem. O marido que nem ligava a essas ervas era louco por batatas e cheirou aquele bufada quente que transpirava das batas, bem amarelinhas e cobertas de ervas que para ele era só enfeite, e logo ali ficava meio perdido e também com vontade de ir à casinha de banho. Mulher, despacha-te, também quero ir aí. Ai, caramba, também? Que queres mulheres, deve ter sido do jantar de ontem que fizeste. O peixe devia estar mais cozido que o diabo.

                Maria Joana lá foi para a cozinha novamente. O marido enfiou-se na casa de banho em dois tempos. Do corpo de Maria Joana emanava um cheiro de uma mistura de tabaco com couve, com ervas, com efeitos de flatulência, com batatas assadas, com frango bem assadinho e uma pitada de prazer no fim. Que bom perfume, acabou por constatar Maria Joana.

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